Muito Além Do Cidadão Kane

Política

Não se preocupe se você nunca viu este documentário: ele está disponível no YouTube.
É uma denúncia sobre o monopólio da informação e do uso político dela, exercido no Brasil (e no mundo) pela mídia em geral e pela Rede Globo em particular.

O monopólio da informação é um mecanismo complexo e não se limita à esfera da produção e se exerce principalmente sobre a circulação e sobre a massificação das obras, que repercute diretamente no processo de ideologização.

O filme foi produzido de forma independente com apoio da BBC, TV pública britânica, e se baseia nos trabalhos de Romero Machado (“A fundação Roberto Marinho”) e Daniel Herz (“A história secreta da Rede Globo”), que documentam os processos de formação e funcionamento da empresa.

O título busca associar Roberto Marinho, considerado o marechal civil do golpe de 1964, ao personagem de Orson Welles, protagonista do filme “Cidadão Kane”. Não vamos nos esquecer que a família Marinho já era bastante rica e grande influenciadora através do Jornal O Globo e diversas emissoras de rádio em todo o Brasil.

Em 1965, Roberto Marinho (e não O Globo) foi “agraciado” com a concessão de um canal de TV no Rio de Janeiro e São Paulo. A intenção maior era propagar os feitos do governo militar, recém instalado pelo golpe de 1964, com programação voltada ao desenvolvimento e à grandeza do interior do país, relatado por grandes nomes como Amaral Netto (o programa se chamava “Amaral Neto, o Repórter), Tele-Cursos, etc. A nova emissora seria chamada de TV Globo e contou com a participação ativa da publicidade “chapa branca“.

Amaral Netto

A TV é encantadora, pois estabelece uma relação de suposta intimidade com o telespectador, como se lesse seus pensamentos e atendesse aos seus desejos. Assim, povoa a imaginação de milhões de pessoas, reproduzindo valores simbólicos numa escala industrial, sem estímulo a qualquer tipo de reflexão.

A programação televisiva tem como objetivo principal “esvaziar” o senso crítico de quem assiste, deixando “mentes livres” para que a publicidade estimule o fetiche da mercadoria, próprio do capitalismo.

Tal qual o espelho da bruxa de “Branca de Neve”, a televisão busca parecer onisciente, onipotente e onipresente sobre a vida cotidiana do telespectador, explorando as vaidades, curiosidades e emoções.

Na televisão os sonhos podem realizar-se desde que tenhamos submissão aos seus desígnios e princípios, isto é, que sejamos “de fato” merecedores de suas graças. Através da TV, ser “artista de novela” ou jogador de futebol se converte numa utopia para a classe trabalhadora.

O documentário propõe essa reflexão e aponta como a criação da Rede Globo foi mais do que uma simples concessão pública, pois fazia parte do projeto de “modernização e integração nacional” da ditadura militar, contando, é claro, com o apoio de capital norte-americano, especificamente do conglomerado “Time Life”, atual “Time Warner”.

De certa forma, se outras oligarquias (Mesquita, Frias, Civita) apoiavam a ditadura, a Rede Globo era a ditadura, ou pelo menos, seu departamento de propaganda. O regime militar nunca precisou censurar a Rede Globo e, quando o fez, foi mais para mostrar quem é que manda de fato.

O controle da informação constante no AI-5 pretendia simplesmente impor à toda imprensa a mesma linha político-ideológica da empresa dos Marinho. Não por acaso, ainda hoje nos editoriais “jornalísticos” podemos ouvir os ecos da doutrina da “segurança nacional”. Hoje em dia, com o politicamente correto, as mobilizações dos trabalhadores não são tão deslegitimadas como antes, quando eram vistas e tratadas como ameaças ao bem-estar social e ao progresso.

Roberto Marinho com Generais da ditadura

Na obra destacam-se alguns momentos simbólicos da interferência da Rede Globo na vida política brasileira: a distorção na cobertura do movimento “Diretas Já”; a tentativa de falsificação do resultado das eleições fluminenses, conhecida como caso “Proconsult”; a edição do debate final entre Lula e Collor em 1989 e vários outros.

Essas manobras, típicas de golpes de Estado, são razões para a não renovação de qualquer concessão pública, mas, no Brasil, esta rede é considerada “sagrada” e continua recebendo volumosas verbas de publicidade estatal e generosos financiamentos do BNDES.

Em 1981, a Globo já era a grande emissora brasileira e o “Padrão Globo de Qualidade” não via nenhuma outra emissora no retrovisor. Era a líder isolada de audiência em qualquer dia e horário, muito distante do segundo colocado. Só se sentiu ameaçada no início dos anos 1990 pela TV Manchete e sua novela “Pantanal” (recusada pela Globo), que prometia qualidade superior à própria Globo. Nessa época (em 1981), ao ver o regime militar próximo do fim, Roberto Marinho redigiu uma carta aberta onde se arrependia de ter compactuado com o governo militar. Mas o próximo presidente seria o Sarney e nada mudou de fato.

A TV Globo sempre foi uma emissora ligada a governos, não importa a ideologia. Mas arrumou uma encrenca com Jair Bolsonaro, numa entrevista ao vivo no Jornal Nacional, candidato que já era visto como vitorioso. E, sob Bolsonaro, não apenas a Globo, mas muitas emissoras de rádio e/ou TV viram as verbas governamentais minguarem enquanto outras, eram premiadas com elas.

A Globo é a grande vitrine do Brasil, sem dúvida. Produz novelas que são acompanhadas por milhões de pessoas, noticiários que formam opiniões e faz o que a grande imprensa sempre faz: luta por seus interesses sob o argumento do dever à informação.

Tempos atrás, o Jornal Nacional começou com uma acirrada campanha contra Edir Macedo, o então mandatário da TV Record, que durou vários dias e estava sendo visto como um potencial concorrente. De repente, o JN se calou e nunca mais tocou no nome dele. A explicação era muito simples: a Record era a detentora dos direitos desse documentário e ameaçou exibi-lo em horário nobre. Na ocasião, a Globo até entrou na justiça para impedir a veiculação do documentário, apesar de ele estar disponível no YouTube (clique aqui).  Não se sabe ao certo o que a justiça determinou, mas não vimos isso na TV !

A Rede Globo já ganhou vários apelidos, como Globolixo e outros.   Mas o fato é que o quarto poder é tão poderoso e influente que todo mundo assiste.   E fala mal.

Texto de Renzo Grosso (parte) com adaptações de http://www.ceep.org.br/index.php.

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